“The Fall”: o cinema exuberante de Tarsem Singh
Postado por Owski
novembro 19, 2009

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Longe do circuito comercial, quando muito figurando na programação do Telecine Pipoca, uma obra-prima do cinema recente passou despercebida até pelos segmentos alternativos. Lamentavelmente apelidado de “Dublê de anjo” no Brasil, The Fall, filme[bb] do indiano Tarsem Singh (diretor de A Cela, atualmente trabalhando na adaptação do jogo God of War), começou a circular em festivais em 2006 e somente neste ano estreou oficialmente, em DVD[bb], neste país tropical e abençoado por Deus. Trata-se de uma explosão visual. A fotografia é bela a ponto de fazer o sujeito agradecer por estar vivo para ver coisas do tipo. Se a exuberância cenográfica de A Cela surpreende, os fotogramas de The Fall parecem trabalho de um meticuloso pintor de aquarelas.

Quando, procurando qualquer coisa em uma tarde desocupada, cheguei ao Telecine Pipoca, me enchi de ceticismo ao assistir à apresentação de cinco heróis bastante improváveis: Blue Bandit, interpretado por Lee Pace, que também é protagonista e narrador da “história dentro da história”; o Indiano, um indiano; o ex-escravo Otta Benga; Luigi, italiano especialista em explosivos com pinta de russo e roupa de árabe; e um jovem e excêntrico Charles Darwin (!?) e seu macaquinho de estimação, Wallace. Todos eles estão em uma cruzada para matar o cruel governador Odious.

Eu não ficaria nem dez segundos assistindo aquilo. O que me salvou do erro foi perceber a linguagem de câmera privilegiada do filme. Se fosse cinema infantil, ao menos tinha esse mérito. Segui na audiência. A doideira se explicava: tratava-se de uma história sendo contada pelo enfermo Roy Walker (Lee Pace), um dublê que havia se acidentado ao tentar impressionar a namorada com uma manobra. Amargurado com a paralisia das pernas e com a perda da moça para o protagonista do filme em que atuava, ele pensa em suicídio no leito do hospital, até que a menina Alexandria (Catinca Untaru), imigrante que está hospitalizada com um braço quebrado, o encontra. Os diálogos entre os dois são um espetáculo à parte. Se Lee Pace está no seu melhor papel até a data, a atuação de Catinca é comovente:

Toda a história narrada por Roy é mostrada tal como ela se desenrola na imaginação de Alexandria. Por isso, conforme ela interrompe a narração para fazer apartes ou demonstrar preferências, a aventura e os personagens sofrem modificações. Roy aproxima-se de Alexandria e aproveita a amizade para pedir favores: a intenção é a de que a menina lhe traga as drogas que lhe possibilitarão o suicídio. Nos momentos em que Alexandria hesita, ele ameaça não continuar a história. A inocência da menina e o oportunismo do dublê permanecem em um jogo que se manifesta na narrativa de Roy, em que alternam-se momentos de singelo e simpático humor e passagens sombrias, tristes e poéticas.

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O ambiente surreal da ficção reproduz a realidade desregrada, livre e ingênua da imaginação infantil, e eis toda a licença que Tarsem teve para criar um mundo incoerente, labiríntico e despudoradamente deslumbrante. Pouco importa que Charles Darwin seja retratado como um prodígio de vestuário extravagante, ou que sejam explorados todos os clichês existentes, ou que multipliquem-se as perguntas sem resposta: é o mundo mágico que Roy cria para Alexandria. Também é bonita a trama que envolve os personagens “reais”. Aqui, como não poderia deixar de ser, predomina a coerência, a cronologia e toda a verossimilhança que se exige de uma narrativa séria. Ainda assim, junto à força das atuações, Tarsem parece emprestar um toque especial a cada ângulo de câmera e arranjo de luz. As canções, compostas exclusivamente para o filme – algumas cantadas pelos próprios atores -, exalam poesia, e não servem como pano de fundo para a ação visual, mas são protagonistas paralelas da narrativa, numa complementaridade que em momentos alcança a força e o lirismo dos melhores lances do cinema musical.

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Ao longo da aventura, o Bandido Mascarado tenta se vingar de Odious, assim como todos os demais heróis, de alguma forma ofendidos pela crueldade do governador. Note-se que Odious não é ninguém menos que o próprio ator que surripiou a moça por quem Roy estava apaixonado. Naturalmente, a relação de Roy e Alexandria torna-se cada vez mais estreita, e o afeto mútuo irá determinar o destino de duas histórias.

São poucos os filmes que reúnem as capacidades de divertir, emocionar e proporcionar satisfação estética. Arrisco dizer que Tarsem logrou criar uma obra cuja maestria nenhuma boa plateia ousaria negar: aqui, a beleza só pode ser unânime, a não ser naqueles particulares casos em que a sensibilidade do espectador tem a profundidade de uma poça d’água. Assim como a épica abertura em preto-e-branco, o final não decepciona, e compila imagens que prestam uma justa e bela homenagem. Mas não vou encher isto aqui de spoilers. Segue o trailer:

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2 Comentários em ““The Fall”: o cinema exuberante de Tarsem Singh”
  1. Tiago
    2009 novembro 27

    onde encontro??? deu vontade de assistir. só o trailer já seria empolgante, mas a resenha me deixou na obrigação moral de ver o filme :P

    e a adaptação do Deus da Guerra, então, tem tudo para ficar bem foda.

  2. Owski
    2009 novembro 30

    Cara, não peguei essa geração Play 2 (não foi por falta de vontade). No máximo, me atualizei com os novos Winning Eleven jogando na casa de amigos. Então nem sei o que esperar desse filme do Deus da Guerra, já que se refere a uma história que nem conheço e não tenho a menor empatia. De todo modo, os caras costumam fazer esses filmes de um jeito que “todo mundo entenda” – muitas vezes é isso que fode com adaptações. Mas acredito que, em termos visuais, não deixará a desejar.



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