Conquistando o Inimigo: um livro que mostra por que Mandela é o cara
Postado por dionysus_X
julho 02, 2010

Em 2010, uma Copa do Mundo. Na África do Sul.

Prato cheio para todos comentarem a história daquele peculiar país africano que às vezes não parece africano, um país cheio de riquezas e  que deu ao mundo milhares de diamantes, o primeiro transplante de coração e a Charlize Theron.

charlize-theron

[Charlize é uma mulher tipicamente africana, como você pode ver]

Nestes dias copeiros, os telejornais, programas de esportes e variedades e até as narrações dos jogos são pontilhadas de informações sobre a história, a cultura e a sociedade da África do Sul, e uma palavra que não era muito usada por aqui desde os anos 90 reaparece, como resgate de um passado sombrio: apartheid.

De 1948 a 1990, esse era o nome do regime de segregação racial oficial na África do Sul.

Nós, brasileiros, vivemos em um país absurdamente desigual, que nunca teve (e que ainda demorará para ter) um presidente negro, um país onde os negros raramente saem da favela e  só fazem sucesso se forem jogadores de futebol ou cantores de pagode/rap.

Mas, na África do Sul do apartheid, a coisa era mais feia. A desigualdade era um cânone oficializado pela Constituição, que institucionalizou o domínio de 90% de negros, mestiços e indianos por uma minoria de 10% de brancos.

apartheid

[Banheiros só para brancos. Isso já existiu na África do Sul]

Os brancos sul-africanos, constituídos principalmente por africâneres ou bôeres (descendentes de calvinistas holandeses) e por uma minoria de descendentes de ingleses, controlavam a economia, a política, as forças armadas e a polícia do país. Eram os únicos que podiam votar e usufruir da maioria das riquezas. Criaram no país zonas especiais para seu uso exclusivo e segregaram os negros em guetos bem delimitados. Os brancos viviam uma vida confortável e próspera enquanto a imensa maioria da população aceitava a miséria e a humilhação.

Bem, nem todos aceitavam. Havia bastiões de resistência, e o principal era o Congresso Nacional Africano (CNA), um misto de partido, organização social e movimento de luta armada cujo maior líder foi Nelson Mandela. Depois de décadas de luta e na clandestinidade, o CNA conseguiu se tornar uma força política legítima, acabando com o apartheid e elegendo Mandela presidente do país. A história dessa conquista é contada no livro[bb] Conquistando o Inimigo, que deu origem ao filme[bb] Invictus, de Clint Eastwood.

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UM BELÍSSIMO LIVRO-REPORTAGEM

conquistando o inimigo john carlin

O jornalista britânico John Carlin lançou  Conquistando o Inimigo em 2008.  Sua sacada foi genial: a história da transição democrática na África do Sul é contada tendo como fio condutor a Copa do Mundo de rúgbi de 1995, ocasião em que Nelson Mandela, então presidente do país, usou o esporte-símbolo dos brancos opressores para unir todas as raças de sul-africanos em torno de um objetivo comum.

Durante anos, Carlin entrevistou políticos, ex-jogadores e dirigentes de rúgbi, militantes, ex-militares, ex-presidiários e até radicais de extrema-direita. O resultado é um livro-reportagem primoroso, que alia a riqueza de informações e detalhes a uma escrita vigorosa e empolgante, que prende e emociona o leitor como se fosse um romance. A figura central do livro é o grande líder da África do Sul, Nelson Mandela.

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MANDELA, UM MACHO-ALFA

nelson mandela

Em 1993, quando ganhou o Prêmio Nobel da Paz, Nelson Mandela foi definido, por um dos caras que discursaram, como “o presidente da Humanidade”. Um ano depois, ele seria também o presidente da África do Sul. E não qualquer presidente, mas o primeiro presidente negro da história do país, eleito por esmagadora maioria na primeira eleição em que os negros puderam votar.

Antes de chegar a essa importante vitória, Mandela passou 27 anos na cadeia. Fundador do braço armado do CNA, ele era considerado pelas autoridades brancas o terrorista mais perigoso do país. Cumpriu a maior parte da sua pena na Ilha de Robben, ao sul da Cidade do Cabo. Foi solto em 1990, depois de se tornar um símbolo mundialmente conhecido da resistência ao apartheid, o que gerou uma enorme pressão internacional pela sua libertação.

Depois de conquistar a liberdade, Mandela não voltou à luta armada. Pelo contrário. Demonstrou ter desenvolvido extrema habilidade de persuasão e negociação, e a usou para criar um novo país, conciliando inimigos inconciliáveis.

O livro de Carlin mostra o modo como Mandela soube usar seu charme para conquistar os inimigos. Na prisão, estudou a língua e a história dos africâneres e, fazendo uso desses conhecimentos, conseguiu cativar  carcereiros, autoridades do governo, líderes das forças armadas, repórteres e, mais tarde, o país inteiro.

Quando assumiu a presidência, em 1994, era quase um deus para seus compatriotas negros, mas ainda precisava conquistar milhões de brancos que o encaravam com um misto de ódio, medo e desconfiança. Como evitar que o país entrasse em uma sangrenta guerra civil? Como unir os extremos por tanto tempo separados?

Mandela usou a compaixão, a concessão, o perdão, a reconciliação, mas era preciso algo mais. Algo mais instintivo, mais tribal, mais primitivo. Rúgbi.

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INVICTUS
: A VERSÃO CINEMATOGRÁFICA

mandela freeman invictus

[Na parte de cima, Morgan Freeman e Matt Damon. Na de baixo, Nelson Mandela e François Pienaar. Ou será que...]

O livro-reportagem de Carlin deu origem ao filme Invictus, lançado neste ano pelo diretor Dirty Harry Clint Eastwood e estrelado por Morgan Freeman (que interpreta Nelson Mandela) e Matt Bourne Damon (no papel de François Pienaar, capitão da seleção sul-africana de rúgbi). A questão central do filme é o modo como Mandela usou a Copa do Mundo de rúgbi de 1995 para unir os sul-africanos.

Na África do Sul, a grosso modo, há uma divisão bem nítida nos esportes: futebol/soccer é esporte de preto (como nos mostraram neste ano os Bafana Bafana) e rúgbi é esporte de branco, principalmente de branco-africâner. A seleção sul-africana, os Springboks, sempre foi vista como um símbolo do apartheid. Os negros do país torciam contra o time e motivaram um boicote internacional ao esporte. Os brancos, por sua vez, odiavam o boicote, que os impedia de participar de torneios importantes.

Mandela sabia disso e decidiu se aproveitar da paixão dos africâneres pelo rúgbi para conquistá-los. Depois de muita insistência e pressão do grande líder, as coisas se resolveram de modo inacreditável:

- os negros aderiram à torcida pelos Springboks.

- os brancos reconheceram a importância do gesto de Mandela e passaram a respeitá-lo.

- os Springboks venceram a Copa, derrotando na final os All Blacks, a seleção da Nova Zelândia, uma das equipes mais poderosas de todos os tempos.

Duas foram as figuras-chave da fabulosa campanha dos Bokke: o grandalhão François Pienaar, capitão do time sul-africano, e Morné Du Plessis, um ex-jogador que se tornou dirigente da seleção. No filme de Eastwood, Pienaar é interpretado pelo não tão grandalhão Matt Damon e Du Plessis… não é interpretado por ninguém, pois ele não existe na trama.

Essa foi uma das grandes falhas do filme na sua adaptação do livro, pois o dirigente tem um papel fundamental na história. Outro erro gravíssimo do filme é a caracterização dos Springboks como zebra da Copa. Na vida real, a seleção de rúgbi da África do Sul era um time altamente competitivo e talentoso, mas, no filme, talvez para aumentar a emoção e o fator superação, os Bokke não eram de nada, apanhavam de todo mundo, tomavam surras monumentais a cada jogo. Tudo bem, Mr. Eastwood, é legal ver um time se superando, mas não se brinca assim com fatos reais.

O final, você já sabe. A África do Sul vence, Freeman Mandela entrega a taça a Damon Pienaar em meio a um estádio Ellis Park delirante, ganha o respeito dos brancos e derruba o medo que havia em seus corações, e todos vivem um pouco mais felizes (se não para sempre, pelo menos por enquanto), em uma das mais radicais e mais pacíficas revoluções sociais de todos os tempos.

Pela façanha de unir um país de tão acirrados conflitos e de tão profundas diferenças, Nelson Mandela merece um lugar de destaque no panteão das figuras mais valorosas e decisivas da história da humanidade.

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1 Comentário em “Conquistando o Inimigo: um livro que mostra por que Mandela é o cara”
  1. [...] This post was mentioned on Twitter by Cultura de Boteco, Cultura de Boteco. Cultura de Boteco said: Passada a letargia copística, alguém tá a fim de saber qual é o livro mais incrível dos últimos tempos? http://bit.ly/doSU5t [...]



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