
Peço perdão pelo hiato entre a última postagem e esta. A derrota do Brasil foi tão absurda e circunstancial (ao menos para o meu gosto) que o desânimo para escrever foi imediato. Compensemos agora que o fim chegou.
Tenho lido por aí que esta foi uma bela Copa, que foi uma das melhores, etc. Discordo. Se estamos falando de futebol, discordo. Em termos de engajamento, temperos extracampo, bem, pode ser que sim, e o top 10 da Copa não nos deixa mentir.
Mas voltemos. Ordem cronológica, que é para não nos perdermos:
- Brasil fora [Holanda 2 x 1 Brasil]

O Brasil foi eliminado da forma mais escrota possível. Muito pouca gente falou na arbitragem – parece que é proibido, que reclamar é choradeira, etc. -, mas ela foi ponto-chave para a eliminação. A inversão de faltas foi a tônica do apito, o que muito favoreceu a cavação desenfreada de faltas e a malandragem psicológica nas quais se resumiu a atuação de Robben.
Coitado do Michel Bastos: não fez nada na Copa e, pouco antes de ser substituído (Dunga percebeu os problemas naquele lado e iria colocar Gilberto), participou da encenação de Robben que acabou resultando naquela lambança de gol. Um gol que este Brasil nunca havia tomado, um gol que o Julio César nunca mais tomará. Uma lambança.
Depois, o Felipe Melo queimou a minha língua e fez exatamente tudo o que eu disse que ele não faria: após belo passe para o golaço do Robinho, conseguiu ser expulso por desequilíbrio emocional e violência gratuita. Obrigado, Felipe Melo.
Gol ridículo de Sneijder, seu primeiro de cabeça, selou a derrota esquizofrênica da Seleção. Kaká merece menção pelo notável desaparecimento em campo. Nilmar deveria ter entrado antes. No mais, foi um jogo atípico. Jogassem outras dez vezes, o Brasil derrotaria a Holanda em nove. Mas o resultado veio a calhar para os jornalistas – a Globo, em especial -, que ligaram o modo “eu avisei” no repeat. Se há quatro anos o Galvão dizia que o Brasil tinha um time de estrelas, mas não uma constelação, agora foi a vez de decretar que, em futebol, não se vence sem grandes talentos e craques da bola. Pobre Dunga.
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- La mano de Suárez [Uruguai 1 (4) x 1 (2) Gana]

O emocionante Uruguai x Gana também foi uma bela demonstração de como se inverter faltas e matar o jogo do time “visitante”. Bastava o Forlan ou o Suárez ganharem uma disputa e iniciarem uma jogada perigosa para o juiz parar tudo e devolver a posse para Gana, a seleção coitada, aquela pela qual todos deveríamos torcer, por algum tipo de obrigação politicamente correta.
Pois quis o politicamente incorreto determinar o resultado do jogo. Suárez meteu a mão na bola, não deixou Gana fazer um gol (depois de cobrança de uma falta inventada pelo árbitro), e passou para as semifinais com frieza tipicamente sul-americana nas cobranças de pênalti – destaque para a ousadia do Loco Abreu, que apostou em cavadinha no chute mais decisivo de sua vida.
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- Humilhação à germânica [Argentina 0 x 4 Alemanha]

Bem diferente do Brasil, a seleção argentina saiu da Copa patrolada. Apesar disso, muita gente tem encontrado honra e até charme na derrota de 4 a 0 diante dos alemães. Exaltam o trabalho de Maradona, elogiam a recepção da torcida em Buenos Aires e coisas afins.
Eu vi o seguinte: na primeira oportunidade em que foi atacada com qualidade, a Argentina abriu as pernas e deixou a Alemanha passear em campo. Que jogaço! Tive a sensação de que surgia, ali, a campeã do mundo de 2010.
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- Fúria monótona [Paraguai 0 x 1 Espanha]

A Espanha passou pelo Paraguai (provavelmente o time mais fraco de todos os cruzamentos das quartas) com a ajuda de Cardoso, que perdeu um pênalti. Depois o juiz inventou um pênalti para os espanhóis, convertido por Xabi Alonso mas anulado por discreta invasão da grande área (no pênalti cobrado por Cardoso a invasão da área havia sido escandalosa). Alonso bateu mais uma vez e perdeu. Villa fez o chorado gol da vitória. É esse o futebol da campeã?
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Passagem rápida pelas semifinais
HOL 3 x 2 URU

O Uruguai lutou, merecia passar, mas foi traído pelo tiro certeiro de Bronkhorst, chute que ele nunca mais irá acertar na vida. Alguns analistas de arbitragem dizem que o último gol holandês foi irregular, mas, convenhamos, mesmo que não batesse em Van Persie, a jabulani iria parar nas redes de Muslera.
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ESP 1 x 0 ALE

Sem Müller, o destaque da Copa, os alemães assistiram a Espanha trocar passes o jogo inteiro, até os 1,78m de Pujol vencerem a altura da zaga germânica e fecharem a conta. Quer mais? Mas foi só isso!
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- Forlán eterno [Uruguai 2 x 3 Alemanha]

Escolho este como o melhor jogo da Copa, ainda que a decisão do terceiro colocado costume ser morna, sem graça, enfim, não valha a atenção de ninguém. Não foi o caso. Jogo aberto, técnico, com confronto físico mas sem amarração. Aqui, definitivamente, os uruguaios mostraram que não chegaram longe por acaso. Credite-se à vontade da equipe, à qualidade de alguns jogadores isoladamente, credite-se ao que se quiser, mas a seleção uruguaia fez frente a uma das melhores equipes alemãs que já vi jogar.
No fim, o povoamento do meio-campo e a estatura contaram a favor da Alemanha, mas não seria injusto um triunfo uruguaio. Suárez, apesar das vaias (motivadas pela suposta debilidade ética de sua mão direita), jogou muito bem.
Forlan mostrou por que foi escolhido o melhor jogador da Copa. Levou a Bola de Ouro para casa após sete jogos impecáveis, em que carregou às costas um time tecnicamente limitado. Forlán é habilidoso, sabe organizar e distribuir as jogadas, tem visão de jogo, é forte fisicamente, tem chute preciso… Tudo isso é comum a todo jogador que se possa julgar BOM. Mas Forlán tem algo a mais. Algo que o diferencia de Cristiano Ronaldo, Kaká, Rooney e todas as demais promessas que não se cumpriram na África do Sul. Forlan tem garra. E não é uma garra flutuante, desvairada, dessas que não servem para nada, dessas à Felipe Melo, não. A garra de Forlan é orientada para uma conquista, é a raça de quem chama a responsabilidade para si, de quem não mistura vontade com inconsequência, de quem é experiente e já não quer provar nada para o mundo, senão para o seu próprio país.
E, puta merda, com que golaço ele fechou sua participação no mundial!
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- Uma campeã inédita [Espanha 1 x 0 Holanda]

Torci pela Fúria. Não que eu a achasse a melhor seleção do torneio. Não. Para mim, o título deveria ficar entre Brasil, Argentina ou Alemanha. Fui Espanha porque 1) a Holanda joga à base de faltas cavadas e manipulação psicológica do jogo e 2) o técnico holandês é um cara muito prepotente que, aparentemente, achou que a Copa já estava ganha.
Em suma, torci pela Espanha porque torcia contra a Holanda.
E, no segundo tempo da prorrogação de uma final truncada, cheia de cartões amarelos, faltas (existentes e inexistentes) e chances de gol perdidas, quando eu já considerava a possibilidade de a Espanha entrar com bola e tudo dentro do gol e continuar trocando passes dentro da goleira, Iniesta resolveu parar de dar toquezinhos e enfiar o pé na jabulani. Gol. Espanha campeã. Chora Robben.
Em sua primeira final de Copa, a Espanha vence e se soma aos países que já levantaram a taça mais cobiçada do futebol. A valorização da posse de bola faz da seleção espanhola uma equipe pouco agressiva (e Villa é atacante de momento, vai desaparecer no Barça), mas não deixa de ser uma boa herança tática e algo que eles sabem fazer como nenhuma outra seleção. Foi uma campanha modesta, mas a Espanha acabou merecendo o título.
O que não podemos deixar passar são as alegações (ou insinuações, como as de Falcão – melhor comentarista da Globo, mas nem por isso isento de críticas) de que venceu o futebol vistoso, talentoso, bonito, etc. Querem nos fazer crer que a seleção campeã é um protótipo do Brasil com Neymar e Ganso. Por favor, não! Essa seleção espanhola foi a campeã mundial com menos gols feitos. Isso fala por si só, mas poderíamos reassistir aos jogos só para comprovar que o ataque espanhol parecia de futebol feminino (nada contra).
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Quis o absoluto acaso de um cérebro molusco que um polvo acertasse os vencedores de algumas partidas. Não deixa de ser engraçado e servir para realimentar a mística que orbita o futebol.
Repito, não acho que tenha sido uma boa Copa. Más arbitragens, jogos tediosos, bola traiçoeira… A do Brasil tem tudo para superar esta última. Falo do futebol, não da estrutura e de outras questões. Em termos de logomarca, por exemplo, já saímos perdendo:

Depois que vc encontra o Chico Xavier psicografando, não tem mais como deixar de ver