Os Garçons

Diógenes

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“Sai da frente do meu sol”, disse Diógenes a Alexandre, O Grande. O sol, já naquela época, era o lugar mais quente da Terra e Diógenes, gênio que era, sabia disso muito bem.

O fato é que Diógenes de Sínope não precisava de muito para sobreviver. Morando em um barril – o que lhe permitia uma vista avantajada das ninfetas da época – e vestindo-se apenas com trapos, ele passava os dias no mais profundo ócio, procurando formas de desprezar a opinião pública e inventando desculpas para os flagras que lhe davam enquanto se masturbava. “Oh! Mas que pena que não se possa viver apenas esfregando a barriga!”, era uma das clássicas tiradas para esses momentos inoportunos.

Mas Diógenes estava disposto a encontrar o modo de vida ideal. Saía pelas ruas da cidade com uma lanterna acesa, em plena luz do dia, procurando um homem de verdade – mas não no sentido pederasta da palavra. O homem que Diógenes buscava era o legítimo botequeiro que conhecemos nos dias de hoje.

Seu anseio de encontrar o verdadeiro homem, o verdadeiro companheiro, aquele de coração nobre e de espírito etílico, que afoga as mazelas da vida em um copo de cerveja, o fez ter uma longevidade fora do comum.

Hoje, Diógenes é um homem completo, garçom de profissão e blogueiro nas horas vagas, mora dentro de um barril no porão do boteco da esquina, onde passa as noites servindo e ouvindo seus amigos cantar: “o Diógenes é um bom companheiro, o Diógenes é um bom companheiro, o Diógenes é um bom companheirooooooooo… Ninguém pode negar”.


dionysus_X

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Avatar Dionysus

No princípio, era o Verbo. E o Verbo estava em deus, e dionysus_X era deus – pelo menos, para os mortais que não entendiam a longevidade do cara e nem o sentido das coisas que ele fazia.

Uma das desvantagens de ser imortal é, sem dúvida, ver os amigos morrerem de velhos e ficar meio deslocado nas festas de família, em meio a tantos descendentes diretos e indiretos que você não conhece. Mas há, é claro, as vantagens, e a principal delas é poder deixar todas as coisas sérias para o ano seguinte e se dedicar unicamente aos prazeres da vida.

dionysus_X assim procedeu, desde sempre.

Um amante insaciável da cultura e do prazer, passou semanas infinitas envolvido em colossais orgias culturais, devorando livros da palavra inicial ao ponto final e pausando a leitura só de vez em quando, pra comer uma literata de boas curvas.

Tocou todos os tipos de instrumentos musicais possíveis e até inventou alguns, servindo de mentor e Nêmesis para muitos dos maiores gênios da história da música[bb].

Tirou poesia do mel das abelhas selvagens, do hidromel de vikings mais selvagens ainda, do suor perfumado das prostitutas e de todas as cores dos céus, das montanhas e dos mares de mil lugares.

Foi conhecido e amado por reis e mendigos, teve amigos sagazes e estultos, para uns foi deus e, para outros, demônio.

Hoje, depois de ter experimentado tudo e amado tudo, ele decidiu ter um blog.

Simples assim.


Josias, O Garçom Que Tudo Vê

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garçom
Ex-contrabandista de cigarros e uísque paraguaio, ex-cafetão, ex-dono de igreja evangélica e ex-coordenador de campanha do vereador mais votado da história de Cariacica-ES.

Depois de fazer de tudo em todo tipo de lugar, Josias optou por servir mesas e ouvir piadas sem graça no boteco que passou a chamar de lar.

Bom observador e bom conselheiro, é praticamente um guia espiritual dos clientes mais assíduos. A ele recorrem políticos em busca de dicas para negociatas, publicitários em busca de sacadas para suas campanhas e cornos em busca de cerveja para esquecer a vadia amada.

Ninguém sabe tanto sobre esta birosca quanto o Josias. Qualquer dúvida, pergunte a ele.


Owski

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Owski

Certa vez, cinco estudantes doidões passaram incontáveis dias no bar, sem tomar banho nem fazer a barba nem comer bons pratos nem foder com ninguém. Bebiam e discutiam uma questão que julgavam ser central para o bom encaminhamento do mundo. Teóricos ilustrados revezaram-se em uma sexta cadeira sempre disponível para receber novos debatedores, sem que a situação se resolvesse.

Owski pôde servi-los durante todo esse período, pois era um recém-chegado da Brússia que não tinha onde se enfiar, terminando por viver no porão do boteco acompanhado de seu violino surrado. Dizem que, no décimo dia, Owski, que até então apenas sorria sem dizer palavra, resolveu intervir na conversa, e falou durante duas horas seguidas, contando com a atenção genuína daquele grupo de fedorentos, esfarrapados e barbudos por opção intelectual.

Ninguém sabe o que foi dito. O certo é que, depois daquilo, todos se levantaram e foram embora, ainda que estivesse chovendo muito e o mais aconselhável fosse permanecer mais um pouco no abrigo do bar. Minutos depois, Owski limpava o balcão da copa, e um homem, certo de que aquele garçom sabia solucionar as charadas mais tenebrosas que se podiam conceber, foi até lá despejar queixas:

- Hoje peguei minha mulher transando com dois homens

Owski esperou, e o corno continuou:

- Estavam dentro do carro que comprei para ela.

- …

- E filmaram toda a cena.

- …

- E colocaram na internet.

- …

- E zombaram de mim.

O garçom nada dizia, então o homem perguntou:

- Devo me separar de minha mulher?

Owski atirou o pano úmido sobre o ombro, mirou o homem com um olhar consternado, hesitou por alguns instantes, e acabou dizendo:

- Olha… é complicado.

E o homem foi embora.


Jorjão: um perfil

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Jorjão
Nome: Jorge Echeverría
Apelido: Jorjão
Idade: 53
Profissão: Jornalista com formação em Letras, quase aposentado. Ex-professor da rede pública (demitido por jogar um dicionário Houaiss – volume completo –  na cabeça de um aluno).
Signo: Que diferença faz?
Família: a mulher, Tatiana (falante e liberal); o cachorro, Coronel (um pastor alemão velho e surdo); e dois filhos que já não moram mais com ele: Augusto, um hippie formado em Ciências Sociais, e Diana, uma médica que hoje se especializa em medicina preventiva em Cuba.
Posição política: centrista. Nutre uma simpatia por regimes autoritários, principalmente no que se refere à punição de “baderneiros”. Segundo Tatiana, Jorjão batizou o filho mais velho em homenagem a Pinochet, o que ele nega veementemente. Quando mais novo, era usuário de maconha e simpatizante do Partido Comunista, o que ele nega com veemência ainda maior.